quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Cores




















Numa esquina
paragem sossegada
e cristalina

Pode-se achar a beleza
ofuscante de uma vida
recém-florida

Profusão de cores
desfazendo as dores
das mudas interrompidas

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Estrada


Para os que me gostam, os que me odeiam, os que receiam gostar ou odiar.

Para o sabiá que canta lá fora, que alguns saúdam, pela saudade, e outros desejam ver cozido na panela.

Para os que estão sonhando com bolhas, fitas, aragens, cometas, véus de seda cor-de-laranja. Os que sonham com quem não pode mais despertar.

Para os que estão trabalhando em algum relatório, fazendo ronda, atendendo telefones, driblando os abusos do fuso horário.

Para os que assam pão, os que vagam na rua, os que dormem na rua, os que vivem na lua, os que passam frio, os que chutam o cobertor.

Para os que resistem a olhar para o que querem, por medo de ver o que não querem.

Para os que estupidamente arremetem contra a única viga que não cedeu.

Para aquela menina que não me ligou mais.

Para os pais, os filhos, os netos, o avô que ontem fez aniversário.

Para o súdito, o sultão, o mágico, o ermitão.

Para o rapaz que dirige a perua de onde acabam de lançar o jornal.

Para quem acaba de nascer, quem acaba de partir, no hospital.

Para todos, a estrada é longa e incerta, como o brilho de uma estrela.

Cumpre-nos percorrê-la.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Saudade


Da bola correndo na terra, do sol peneirado nas copas, dos peixinhos do lago, das tiras de pastel, dos blocos de papel, das pastilhas de hortelã, das malas recém-abertas, do martelo batendo o bife, dos gatos e cachorros da vilinha, das voltas em torno do shopping, esperando-a fechar a loja.
 
Da orquestra na praça, do sininho da Dionísia, do tráfego, do rádio, do horizonte embaçado, dos caminhos do rio, da janela entreaberta, da loira na sacada, do pônei, do ioiô, do pião, das garrafas de coca-cola, do tambor de gás.
 
Do caderno que devolvi, dos outros que preenchi, dos pedacinhos rabiscados que guardei, dos gramados dourados, dos microscópicos universos de tempos expandidos.
 
Do outro lado da rua, dos silêncios sorridentes, dos sorvetes na casquinha, das próximas paradas, do frio tão elegante de chapéu e cachecol.
 
Do desejo de não chegar.
 
Daqueles medos miúdos que hoje, um a um, se concretizam.
 
Do homem que eu queria ser, podia ser, devia ser, tinha tudo para ser e, quem sabe, por sorte, já o seja.
 
Das outras saudades que tinha e perdi, larguei por aí, já não lembro mais.
 
E você? Não se envergonhe. Aprochegue-se e conte: do que tem saudade?
 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Lago

 
Foi o mais perto que chegou. Era um lago o amor, a perder de vista, soberano esplendor. Viu-lhe o reflexo nas águas, viu dissipadas as mágoas e os temores. Tocou o futuro, cristalino e calmo, repleto de vida. Teve, nos dedos, a pepita pura. Confirmou-se naquele olhar risonho, olhar de sonho, naqueles cabelos que se trançavam por trás das costas, como uma segunda medula.
 
Mas que, às vezes, mesmo a mais bela quimera capitula.
 
Veio o inverno e, com ele, o frio eterno. Congelou-se o lago, cristalizou-se o reflexo, petrificou-se a vida. Presa ficou a pepita na neve, o ouro já sem valor, impedido de brilhar.
 
O olhar continua risonho, mas um pesadelo vê-lo agora, lembrando-lhe aquelas águas que gostaria de esquecer. Aquelas águas sobre as quais pisa, pula, dança, águas que golpeia com violência e, também, receio, à espera de que se quebrem as placas de gelo, restabeleça-se o lago na planície branca.
 
Águas nas quais, decerto, a trança desmancharia já no primeiro mergulho, o que pouco importaria, a segunda medula já não seria feita de cabelos nem de vértebras, seria um sol capaz de muito mais luz e calor que este que conhecemos.
 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Foi


Foi quando sorriu lá fora,
e o fio desenovelou-se,
e o frio, dentro, mancou-se,
e foi-se embora.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sabor


Eram balas em que o plástico aderia, e às vezes eram comidas sem que se percebesse que o invólucro ia junto.
 
Lembrou-se delas para explicar e exemplificar o que via naquele mundo, naqueles gritos, naquela liderança, naquela ideologia, naquela ambição: balas nas quais o plástico aderia e a gente mandava goela abaixo, não tinha, mesmo, como saber, não se queria ou prezava esse intruso conhecimento. Ademais, não havia tempo nem unha para conferir, a incitação persuadia, hipnotizava, glorificava. Mastigar era para os fracos, era o capricho dos médios, que urgia extirpar. 
 
Por sorte, as mucosas, como a justiça - ou a sombra da justiça - padecem de cegueira; a digestão, com seus ácidos e enzimas, o que resta incólume dos processos democráticos.
 
Por sorte, tudo que entra, sai. E, porque sempre é assim, uma hora há de se perceber que a matéria anda insípida, os botões gustativos estão sendo ludibriados. E o sabor, ora, o sabor faz falta, o sabor é tão poderoso quanto a fome, o sabor arma guerras, muda a história.
 
O sabor é o que nos discerne do bolo alimentar.
 

domingo, 21 de julho de 2013

Amizade


Tardiamente descobri que ontem foi dia do amigo. Não sei até que ponto isso importa ou não, se é comércio, perfumaria, falta do que fazer de algum legislador. De toda forma, como as demais datas semelhantes, dá a oportunidade para pensarmos um pouco no alcance e significados de um sentimento.

O que é a amizade? O que a concebe, sustenta, faz perdurar? O que a torna imprescindível em nossas vidas? Perguntas que não possuem respostas fechadas. Variam de pessoa para pessoa, momento para momento, crença para crença.

Fiz, por exemplo, bons amigos na infância. Tínhamos planos mirabolantes, projetos de instalação de bases secretas, mapas de grandes expedições, esperanças de preciosos tesouros. Pulávamos portões, invadíamos quintais, quebrávamos vidros, caíamos e nos levantávamos em cada calçada do quarteirão. Pendurávamos em árvores, explorávamos telhados, despíamos mulheres com olhos sequiosos das primeiras sensualidades.

Alguns desses amigos ainda encontro por aí, na rua onde jogávamos bola, driblando os carros e crateras. Não raro, demoro para reconhecê-los. As palavras que trocamos, quando as trocamos, são mecânicas. Não fluem com naturalidade. Fazem perguntas de manual de convivência. Abismam-se na distância que o tempo abriu conforme fomos crescendo.

Indago-me se, dado o que o destino lhes reservou, eram mesmo amizades. Creio firmemente que sim. Amizades francas, verdadeiras, desinteressadas, nascidas da espontaneidade e de um pouco de ingenuidade. O fato de cada um ter seguido o seu caminho, de alguns de nós parecermos mutuamente estranhos agora, não significa que se anule o que juntos construímos, o que trouxemos e deixamos um à vida do outro. Amizade não tem a ver com o tempo. É outro o seu compromisso.

Falando em tempo, no fim das contas, também na escola fiz bons amigos. Pessoas que me transformaram, ajudaram-me a descobrir estimas, desenvolver potencialidades. Pessoas que me deram música, encheram-me de letra e melodia. Pessoas que me disfarçaram medos, formaram o cordão para que eu pudesse avançar cada vez mais longe de onde estava acostumado a ir.

Nas faculdades, igualmente, descobri bons amigos. Gente de diferentes lugares deste país imenso, cada qual com um acento novo, um tempero mais propício, um acervo inédito no qual mergulhar e não ter pressa de emergir. Colegas, professores, flores que apareciam no caminho entre a casa e a aula.

Em outros lugares, a mesma sorte. Hoje, tenho amigos que dançam, amigos que saltam para cravar a bola na quadra, amigos que escrevem, amigos que debatem, amigos que interpretam, amigos que fazem um pouco disso tudo e pretendem fazer ainda mais. Amigos que vão, que voltam, que escoltam a caravana pelo prazer de participar.

Em comum entre eles, o que entendo ser a essência da amizade, também de todo sentimento maior, como o amor e a ligação familiar: apoio. Especialmente nas situações mais difíceis, o amigo é aquele que dá apoio, que presta solidariedade, que se preocupa e faz questão de demonstrar essa preocupação. Ainda que sua opinião seja divergente; que, no fundo de si, ele não compreenda as decisões e indecisões, o amigo se compadece do outro e vem em seu socorro. Mesmo que apoio signifique dizer verdades doídas; que consista em medidas duras, indesejadas, o amigo não se esconde. Não vira as costas. Não sai gritando desaforos e batendo portas. Não faz represália apenas porque o seu ponto de vista não foi implementado. Não perde a memória assim, de um dia para o outro. Diz o que sente e fica, ao invés de ir embora.

Amigo, se é que dá para resumir, é quem supera eventuais discordâncias em nome de algo mais elevado, de um pacto que envolve umas poucas condições: respeito, dignidade, carinho, tolerância.

Abençoado de diversas maneiras, fui agraciado também com a dádiva de amigos que estão aí, nas linhas acima e nas de muitos outros cadernos, já escritos ou ainda por se preencher. A vocês, ofereço esta pequena, sincera homenagem, como gratidão por tudo.

Allan - 21/07/2013