domingo, 25 de novembro de 2012
Escorregadias
Sempre escorregadias as vias em que não vias
borbulharem poesias.
Eram como dias que não tivessem noite
capaz de justificá-los.
Frascos cujo elixir vaporasse
antes de exaurir.
Ganas loucas de rir do desejo
de chorar.
Balsa onde o esquecimento
fizesse correr
mais lento
o tempo desnecessário.
Pois sempre escorregadias as vias em que não vias
o óbvio enquanto caías:
eram tuas as poesias,
teu este breviário.
sábado, 10 de novembro de 2012
Perto
Uma hora você chora, outra você ri.
Uma hora iramos lá, outra oramos aqui.
Uma hora quer-se estar, outra só se quer ir.
Uma hora faz-se ator, outra se faz amor.
E uma hora passa rápido demais para se entender que só vai longe na vida quem aprende, primeiro, a chegar perto.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Fita
Mais perto chega, mais longe fica.
Uma fita que a gente estica e depressa escapa à mão.
Frase que a boca derruba e cai no chão,
tanto faz agora se ode ou palavrão.
Distante, o instante brinca, finge ser eternidade.
De repente é adulto, lança pergunta de vulto:
por que tão cruel quando feita de mel
a saudade?
E outras questões se desprendem dos elos do tempo,
singelos arranjos de banjo a indagar:
e a rotina, quando é que chega
para o baile à fantasia?
E a menina, quando é que volta de lá?
Por que tapa os olhos a neblina que baixa?
Por que, fora da caixa, a música não toca,
o mundo não roda, a bailarina não dança?
Por que, fora da caixa, a bailarina cansa?
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Domingo
Esta chuva diz muito, infiltrações nos documentos de identidade, gotas esguias nas áleas do ventre, entra e sai de perfumes e pensamentos, lentos respingos de um domingo que só o foi porque a semana deve começar, porque Deus quis que, apesar das nuvens, ela começasse feliz.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Planos
Pena que os planos
não sejam plenos
ora demais
ora de menos.
- E que a poesia desmanche tão depressa se feche o livro.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Esquece
Primeiro você conclui que piriguete (ou periguete, pois o debate lexical, aparentemente, ainda não está fechado) virou profissão, da mesma categoria de ex-BBB e ex-peão. Aí abre um site qualquer de notícias e é advertido de que o Neymar (ídolo nacional) "tem que ter tratamento especial". Aí o locutor tem um orgasmo porque, graças ao carinho da torcida, sai mais um gol contra o mistão da China (cuja seleção titular perdeu do Iraque nas Eliminatórias Asiáticas). Aí escuta o coro: "com muito orgulho, com muito amor (...)". Aí ouve a Justiça Eleitoral dizer que agora vale a pena votar, pois com o Ficha Limpa... Aí vem uma pessoa de classe média e diz que todos os males da humanidade são culpa sua porque você é, adivinhem... Da classe média! Aí a mesma pessoa comemora porque tantos milhões de brasileiros foram incluídos, adivinhem... Na classe média! Aí o governo reduz imposto sobre automóvel e cobra sobre feijão, afinal, o que mais precisamos é de novos carros na rua. Aí você folheia a revista e vê o casal ambientalmente correto porque comprou na planta o primeiro apartamento sustentável da cidade. Aí o repórter investigativo dá lição de moral no adúltero. Aí você compra o desodrante X e pega qualquer mulher, depois joga fora, quando acabar de usar. Aí vira no canal tal e desgraça o dia inteiro, pois quando não acontece uma nova, eles repetem a de ontem, para a gente não perder nunca o tônus muscular.
Ou seja, cara: esquece! Parte pra outra. Isso aqui já era.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Classe média
Parecer da Secretaria de Assuntos Estratégicos
indicou recentemente que, de acordo com os novos critérios de análise adotados,
54% da população brasileira pertence à chamada classe média.
Segundo projeções do IBGE, a população do estado
de São Paulo atingiu, em 2012, 41,9 milhões de habitantes.
Uma conta simples, despretensiosa ao extremo,
converge para
22.626.000 corpos.
22.626.000 cérebros.
22.626.000 línguas que dizem o que lhes der na telha,
pois, até se prove o contrário, e apesar dos últimos pesares, estamos em uma
democracia.
22.626.000 insondáveis circuitos neuronais, cada
qual exposto a uma combinação de impulsos e estímulos necessariamente única,
exclusiva, inimitável.
Isto posto, que me desculpem: nada pode haver de
mais conservador, de mais insidioso, de mais retrógrado e pusilânime, que se
pretender o emparedamento de universo assim plural. Nada pode haver de mais
emblemático que tamanha aberração emanar das salas de aula da maior
universidade da América Latina, onde número preocupante de estudantes repete em
coro, como bons soldados (ou papagaios): "espírito crítico! Espírito
crítico! Espírito crítico!".
Passa da hora de nos perguntarmos: que raios de
espírito crítico é este, que se presta às versões mais mesquinhas de
sectarismo? Que raios de espírito crítico é este, que só enxerga e denuncia o
que lhe convém? Que raios de espírito crítico é este, que se vale dos mesmos
nefandos rótulos contra os quais deveria se insurgir? Que raios de espírito
crítico é este, que se deixa manobrar com a facilidade de um carrinho de
bate-bate?
Como passa da hora de nos perguntarmos: que raios
de progressismo é este, que rotula e desqualifica seus adversários com a sanha
doentia dos melhores totalitarismos? Que raios de progressistas são estes, que
confundem ciência com ideologia, cultura com partido, filosofia com
doutrinação? Que raios de progressistas são estes, que deram de sair por aí com
o martelo da moral em riste, distribuindo veredictos míopes e estigmatizando
quem não os acata? Que raios de progressistas são estes, a tal ponto
preconceituosos, que se permitem a audácia de tomar 22,6 milhões de almas e
jogá-las no esgoto, como criaturas abjetas, inferiores?
Fora das categorias puramente formais da
investigação demográfica, classe média paulista é uma ficção, e de péssima
qualidade. A realidade concreta do estado de São Paulo, talvez intangível para
esses etiquetadores compulsivos (e, lógico, representantes máximos do espírito
crítico nacional), é a de homens e mulheres que trabalham, pagam impostos,
suam, sofrem, surfam e se ferram no asfalto comum. Seres humanos das mais
variadas compleições físicas e origens geográficas, que forjam seus valores não
no delírio de uma categoria artificialmente imposta por pseudorrevolucionários,
mas na luta diária pela sobrevivência. Gente tão sortida, de tão escassos
recursos e em tão diferentes posições, que, não raro, vê-se obrigada a competir
entre si por essa sobrevivência. Pessoas que talvez não atinjam a sofisticação
intelectual dos progressistas da USP (que não leem a revista Veja, porém se
esbaldam em publicações de verniz mais fresco, lotadas de publicidade oficial),
mas, ainda assim, pessoas, de carne e osso, com os mesmos direitos e deveres
das iluminadas mentes que as culpam pelo atraso do país. Comprimir, ou melhor,
pretender comprimir tamanha variedade numa expressão deliberadamente
discriminatória não constitui apenas mero equívoco de discernimento.
Trata-se de autoritarismo descarado. Obscurantismo em estado puro. Ameaça iminente à
liberdade. Policiamento ostensivo do direito à diversidade. Além, claro, de
afronta sem par à inteligência.
É muito fácil destrinchar tanto os vícios como os
interesses por trás desta necedade discursiva. Quem olha para a sociedade
brasileira com um mínimo de imparcialidade, despido das modalidades de
acirramento convenientemente em voga, mais que depressa percebe a que (ou a
quem) servem determinados movimentos que ora ela assume. Deixe-se o olhar,
todavia, para olhos mais treinados, como os da História, e ocasiões mais
propícias, como o futuro. Lá, espera-se, todo o estrago feito por expedientes
mal-intencionados como esse venha à tona. Oxalá haja meios de repará-lo.
O que alivia é que tudo tem a sua razão de ser.
Não bastando o insulto, o ranço, o rótulo, o viés, para enfatizar seu ponto de
vista vanguardeiro e modernoso sobre o referido estrato social paulista,
cunharam a expressão "classe mérdia". Decididamente, não surpreende.
Conservador ou progressista, alienado ou crítico, uma verdade fisiológica une
todos os brasileiros, do Oiapoque ao... Chuí, digamos assim: a fonte dos excrementos.
"Mérdia" só poderia mesmo sair de um...
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