sábado, 28 de janeiro de 2017

Ídolos


Cada qual tem seus ídolos. Uns veneram religiões; outros adoram líderes políticos; outros, ainda, ciências, ideias, utopias. Nada mais natural que, dessas preferências, surjam afinidades, as quais cimentam o convívio e alimentam identidades e sentimentos.

Quando, no entanto, as afinidades viram cláusulas, pré-requisitos, senhas de sociedades secretas, o que se alimenta é nada além da palidez do próprio reflexo. O que se cimenta são réplicas bonitinhas, mas ordinárias, desses muros que grassam no mundo e ninguém quer erguidos.

Nestes tempos de muros, aliás, muito conviria que se olhasse, com a mesma severidade crítica que se faz às fronteiras dos países, também às próprias fronteiras. Ao teor de barro presente em todo ídolo. Às segregações que não se fazem com o decreto de um louco, mas com palavras de efeito, moralismos disfarçados, tiranias cheias de amor.

Entre todo o repertório de novidades cabíveis na existência humana, o que vale para um, vale para todos. Isso não muda. Não tem como mudar. De modo que o idealista pode ser mesquinho, o virtuoso pode ser devasso, o sonhador pode trair quem ama. A ajuda que salva uma vida pode vir de quem jamais se esperaria.

Fechar-se para tamanha riqueza de possibilidades por causa de ídolos é uma opção válida, claro. Mas pobre. Rasa. Infame.

É podar não a árvore que ameaça cair, mas a semente que ameaça germinar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Gratidão


Gratidão é um sentimento dos mais nobres, de fundas entranhas e complexas equações, embora tão simples de se expressar.

Antes, no entanto, deste domínio mais refinado das emoções, em que a razão não penetra e nem poderia fazê-lo, pois não se obriga um sentimento, há patamares úteis. Fórmulas de educação e civilidade, que vão desde o polido e econômico "obrigado", a tramas de maior colorido lexical, tais como "valeu", "tamo junto", "eh nois", passando ainda por acenos, gestos, olhares, carinhas felizes.

Mesmo na ausência calculada e convicta de sinceridade, tais palavras, símbolos e trejeitos são importantes. Nas mais diversas situações imagináveis: quando cai um objeto e alguém o recolhe, quando há uma porta e se dá passagem, quando há uma pessoa na faixa e se freia o veículo, quando se faz um convite, quando se ajuda alguém no início de um projeto que prospera, quando se deseja felicidade.

Mais que ícones de sociabilidade, trata-se, para quem assim o crê, de atitudes positivas. Um dos mais acessíveis meios de humildade e reconhecimento da existência do outro, do valor do outro: não se agradece, afinal, a si mesmo. Uma demonstração prática, e não o meloso discurso, de que, sozinhos, não somos nada.

Você que lê, você que não lê, você que boceja, chora ou sorri, tome, assim que puder, dois segundos para agradecer: um às forças em que creia ou descreia, outro a uma pessoa. Anônima ou conhecida, reincidente ou esquecida, isso é o de menos. Garanto pouquíssimas coisas na vida com este ralo discernimento humano, mas esta, sem medo, lhe asseguro: estará fazendo, de seu tempo, o mais rentável investimento.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Práxis


Escrever nada mais é que praticar a saudade que o coração "apenas" sente.

E porque a saudade não tem regras, todo escrito vale: livros, cartazes, mensagens, pequenas carinhas felizes, ecos da amorosa imaginação.

E porque a saudade bate, até o que não disse ainda ou nunca direi.

sábado, 1 de outubro de 2016

Mistérios

 
Não raro, pairam nos ares, públicos e privados, clamores por amor, gentileza, tolerância, compreensão, mundo melhor.
 
No ponto atual, acho que o mínimo do mínimo de respeito já seria um suspiro profundo de paz. Como estão as coisas, milita-se hoje muito mais perto dos tratores que dos tratos. Causas as mais libertárias revestem consequências que flertam, nas implicações práticas de seus programas, com atrocidades totais. Coletividades apresentam-se com um egoísmo tal, que a própria Contradição, fosse uma deusa, coraria.
 
Constituísse a política o único nó; fossem os partidos, os governantes, os candidatos, as assembleias; fossem, mesmo, os sistemas econômicos, todos aqueles -ismos que parecem explicar tudo, exceto o fato de que não existem além da imaginação teórica de quem os determina, seria mais fácil. No fundo, é a sua função: tornar mais fácil o que é complexo, o que dança à beira do precipício.

Problema é que vai além. É também, e muito, o que vem de dentro. O que se dá de pessoa a pessoa, de casa a casa. O valor que se atribui a quem está perto, a quem passa do lado, a quem prestou uma ajuda e merece gratidão, a quem vai cruzar uma porta e não quer ser derrubado só porque deu o primeiro passo. Noções elementares de dignidade, reconhecimento alheio e até física, que não podem, em nenhuma hipótese, submeter-se à vocação autoritária do próprio umbigo, por mais belo que se intitule o que ele aponta.
 
O entendimento de que as carnes são as mesmas, os órgãos, o sangue, as correntes elétricas, e que, se isso não é o bastante para tratar bem uma pessoa no singular, não adianta nada ter, na boca, o melhor discurso para elas no plural. Mesmo porque, a vida, em seus mistérios, em seus jogos de imagem e reflexo, dá, por vezes, o prodígio ao medíocre, a doçura ao truculento, as mãos ao pé para subir e olhar sobre os tapumes.
 

domingo, 18 de setembro de 2016

Caçadores de hipocrisia

 
Se você pegar os candidatos a prefeito e vereador, descobrirá, em todos eles, uma série de hipocrisias. Nem carece grande esforço intelectual. Elas já vêm prontas para consumo.

Diz-se mais: se você apontar os governantes, sejam eles do executivo, legislativo, judiciário, estejam depostos, empossados, falecidos, investigados, presos, foragidos, à esquerda, à direita, no mundo da lua ou do cão, vai encontrar mais um monte delas. Um Everest!

Se, indo além, mirar imprensa, atletas, artistas, movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, igrejas, mesmo as raras associações verdadeiramente caridosas, que não sugam o erário e, ao contrário, geram tesouros de esperança, achará, em cada qual, mais uma porção.

Se, na ânsia de se convencer, escarafunchar o comportamento dos seus vizinhos, amigos, parentes, mesmo aqueles que você mais ama, nem precisa que a viagem chegue ao âmago: o olhar mais benevolente que se lhes dê não impedirá a revelação de mais uma penca.

Agora, se você quiser, de verdade, exceler no mister de caçador de hipocrisias; se desejar, do fundo da alma, contemplar a miríade mais vasta dessas formidáveis criaturas, vá ao espelho. Observe-se sem pudor. Liberte o reflexo dos grilhões do orgulho e deleite-se com o maior espetáculo da Terra.

Porque caçar hipocrisia lá fora não requer nenhum trabalho. Basta abrir a palma da mão e recolher a abundância. Difícil é sair do gabinete de si e admitir, sem subterfúgios, que as portas talvez tenham ficado fechadas tempo demais.
 

domingo, 28 de agosto de 2016

30

 
Meu avô sempre nos dizia, ao desejar algo nas datas comemorativas: "saúde, paz e muita sabedoria".
 
Ao completar 30 anos, percebo que, de fato, ele tinha razão: saúde para lutar; paz para repousar; sabedoria para entender, no caos dos acontecimentos, o momento para um e para outro.
 
São os meus três pedidos para hoje.
 
O quarto, oração de todos os dias, não só deste domingo, é que nunca me falte a clareza de que a única realização a que posso aspirar na vida é estar perto das pessoas que amo. Ser melhor por elas. Ser mais forte por elas. E ver o tempo nos moldando, nos mudando, multiplicando e misturando.
 
Por isso escrevo, por isso sonho, por isso sinto saudade, por isso me desculpo, por isso agradeço.
 
Por isso sou feliz.
 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Perguntas


Cada post realizado, salvo outros três, em média. Não sei se é algo bom ou ruim. Fico pensando depois: quem vai ler tudo isso? Quem vai se interessar? Qual sua importância, a não ser para quem redigiu, ainda mais não sendo eu um escritor profissional?

Muitas vezes penso na minha descendência, entre filhos futuros e sobrinhas presentes. Não no sentido de deixar qualquer legado, porque não teria tal pretensão, mas no sentido de que soubessem quem eu sou, quem eu fui, quanto amei. Algo de que me ressinto em relação a meus avós falecidos, a outros parentes importantes dos quais só tenho os testemunhos de quem com eles conviveu. São narrativas que fazem falta, que fariam companhia em horas de paz ou desencontro.

Neste aspecto (em qual não?), a vida é surpreendente. Acostumados à superfície, mal tangenciamos a experiência íntima dos que nos cercam. As pessoas passam e o que fica delas? O que sabemos de suas aspirações, de seus temores? Acabamos no pântano comum das impressões, das imagens públicas, dos apelidos, dos traços físicos. Daquilo que seria suficiente, não fossem os álbuns, os chaveiros, as caixinhas de lembranças no fundo do guarda-roupas, abertas, quando muito, de ano em ano, quase como um ritual. Não fossem as conversas em silêncio, as mudanças adiadas, o choro das permanentes despedidas de si mesmo.

Cada vez que me dou conta de haver deixado de lado uma oportunidade de entender melhor alguém, rasga-se-me uma fibra. Porque sei que ocasiões assim não se repetem. Como sei que os olhos correm sem pousar a tela, as ruas, as vitrines, os rostos, porque este é o ritmo e a regra. Não dá para ser próximo de uma multidão, evidentemente, mas e quando a distância se aprofunda com quem está do lado? Quem não sai do pensamento? Quem estende a mão? Quem o tempo já levou?

São perguntas que me faço nesta idade, ciente de que as respostas não virão nas próximas. Talvez não existam. Talvez, existindo, sejam ferozes demais, difíceis além.

Amém!