quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sentimento

 
Quando se tem sentimento, não é pelas opiniões, pela roupa, pelos gostos, pelas opções que se exercem no catavento de decisões chamado vida. É pela pessoa.
 
Com seus erros, seus limites, seus contornos insondáveis sob o papel vegetal das expectativas que lhe impingimos.
 
A pessoa inteira, não seu compacto com melhores momentos. A pessoa que pode ou não mudar. A pessoa e seus fantasmas, também suas fantasias. A pessoa em toda sua loquaz contradição.
 
Porque, ao fim e ao cabo, pessoas é o que somos quando tudo desmorona e quando tudo recomeça. Pessoas que, nas suas circunstâncias específicas, compartilham iguais necessidades. O mesmo corpo, a mesma fome, o mesmo sal.
 
Porque pessoas, não ideias, o que conforta perdas, realça brilhos, irriga a pele na sequidão das estiagens da alma cansada.
 
À beira dos 29, nesta manhã enfim chuvosa, é o que atesto e, simples, reproduzo.
 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Injustiça

 
Sendo, ontem, 11 de agosto, estive pensando bastante no tema da justiça. Ou melhor, no tema da injustiça.
 
Abordado por diversos autores de renome, pelos maiores filósofos, artistas e escritores de todos os tempos, trata-se, sem dúvida, de um horizonte universal da reflexão humana. Algo que se associa à existência de uma forma carnal.
 
Diariamente, observamos a injustiça. Ela se manifesta nas mais diversas esferas que saibamos cogitar. Há a injustiça de posses, de consumo, de condições materiais. A injustiça da impunidade, da reparação. Injustiça institucional, civil, militar, criminal. Injustiça de alguém ganhar mais exercendo a mesma função. Injustiça, até mesmo, divina.
 
Como um rosto que sorri, irônico, da própria sombra, há também, e que força tem!, a injustiça sem adjetivos, sem regência, sem locuções. A injustiça que nada tem que ver com regimes, propriedade, crença, tabus. A única contra a qual não há remédios práticos nem teóricos, tábuas nem utopias. A injustiça que você sente quando suas ações, suas ideias, seus sentimentos e razões mais profundos descobrem não valer nada, não fazer a menor diferença para quem está ao redor.
 
Aquela que se decanta do antigo encanto como um silêncio úmido, salgado. Uma falta atônita de palavras, derivada do excesso traído de sentimento.
 
Aos advogados, estudados ou autodidatas, que lutam contra esse tipo de injustiça; às pessoas que, na simplicidade feraz de sua grandeza, evitam praticá-la, sabedoras que são das leis mais sagradas da vida, a minha admiração.
 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Esquecimento

 
Muitas pessoas associam o esquecimento ao passado. Enganam-se. O esquecimento é, acima de tudo, um fenômeno do presente e do futuro. Deste instante e dos próximos. É a dor e o vazio de assim se sentir, de projetar tal sentimento para os dias vindouros.
 
O esquecimento é, antes, uma doença do coração que das sinapses.
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tranquilidade


Não tenho experiência de vida, não tenho dados, não tenho sabedoria.
 
À parte isso tudo, tenho um conselho: busque, dentro de si, a tranquilidade. Faça dela seu bem mais precioso, sua carta poderosa, seu horizonte tentador.
 
Procure-a porque, no mundo, há pessoas demais empenhadas no contrário. Dedicadas à guerra, à cizânia, à busca desenfreada por ambições materiais. Autores de discursos baratos, extremamente perniciosos, que incitam o ser humano à hipertensa mania do choque e da cobiça. Criaturas que brincam com seus peõezinhos de estimação, cegas por causas, indiferentes às consequências.
 
Procure-a porque, na fé celeste ou ideal, há pastores demais empenhados em vendê-la, quando você a tem aí, consigo, no seu âmago, pessoal e intransferível.
 
Procure-a porque, não sendo arma de ferir, a tranquilidade é o escudo impérvio contra a qual essas intenções não lograrão prosperar.
 
Procure-a porque, intranquilo, o coração não ama – reage, encolerizado, a brutais expectativas. Não distingue – atende, doente, ao chamado de sereias. Não cria – reproduz, pasteurizado, o que tanto quer ouvir. Não sonha – exila-se, iludido, da verdade que o conturba.
 
Procure-a porque, ainda que o esquecimento seja um veneno, que a lembrança seja o antídoto, fatal não é a substância, mas a proporção em que se consome.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Certeza

 
Quando houver uma certeza, pense que é um pouco mais difícil do que parece.
 
Porque, normalmente, é, e um pensamento não costuma fazer mal antes de uma ação.
 
Na ciência, por exemplo. Quantas teorias diariamente não se refazem, derrubadas por evidências que, amanhã, tornar-se-ão um capricho defasado? Quantas inovações não se fazem clássicos uma velha manhã? Eruditos a que se deve não mais que condescendente respeito e um cheque, mormente magro, de aposentadoria?
 
Na política, então! Quantas vezes não se assume lutar pela mais nobre das causas, quando, na verdade, tudo não passa de um truque de ilusionismo? Jogo de cena de velhas raposas ateias, capazes de enganar Deus e o Diabo com seus compromissos, bandeiras, coalizões? Quantas ocasiões não se crê estar na vanguarda quando o mundo, imperceptível, cambiou de eixo? Quanto não se faz, de cada indivíduo valente, cordeiro desavisado?
 
São auroras raras, flores de montanha. Incessantes, quiçá infinitos processos de decantação. Daí que, havendo uma certeza, pense que é um pouco mais difícil do que parece. Mesmo os lugares mais comuns, os sensos melhores, as palavras mais populares. Tudo tem uma raiz, uma seiva, um caminho, alheios a nosso saber e a nossa vontade, limitados que estes são no tempo e na inteligência.
 
Pense, se possível, com o sentimento. O seu e, especialmente, o dos outros. Faça, aliás, dos sentimentos dos outros um critério seu. Se não puder sempre, faça-o às vezes. Dentro do possível. Uma vez ao ano. Só não renuncie a isso. A este pequeno evangelho humano que talvez seja a única, possível e gratuita convicção que se nos dá.
 

domingo, 7 de junho de 2015

Ainda bem


Existem coisas que o dinheiro não compra, e certamente não estão em comerciais de cartão de crédito.

Existem coisas que me fazem feliz, e certamente não estão em comerciais de supermercado.

Existem sorrisos divinos. Nunca os vi na fila do banco.

Existem momentos inesquecíveis. Nunca os passei na loja de uma operadora de celular.

Nas ruas, radar.

Ainda bem que, nas luas, luar,
ou o que ia nos salvar?

terça-feira, 26 de maio de 2015

Trastes


Há alguns anos, encontrava-me em pé, em um ônibus razoavelmente cheio na Av. Doutor Arnaldo, quando entrou um senhor de calções e camiseta. Tinha porte atlético, aparentava idade entre 70 e 75 anos e carregava uma pequena sacola nas mãos.
 
Uma moça jovem, observando a norma de preferência de assento a cidadãos idosos, ofereceu-lhe o lugar. Sorridente, o experiente esportista agradeceu-lhe a gentileza, mas disse que não precisava, estava bem como estava.
 
Se eu tivesse celular com câmera e tirasse uma foto naquele instante, compartilhando-a, a seguir, nas redes sociais, possivelmente causaria revolta e comoção. O senhor seria tratado como vítima do egoísmo, da rapinagem, do oportunismo dos passageiros mais jovens, ao ser deixado em pé, suscetível a uma queda pelos trancos do veículo; a moça, como vilã tipicamente brasileira, que pretende tirar vantagem de tudo; a sociedade, como deficiente de moral cidadã. Muita gente, de diferentes tendências políticas (o que é ainda mais grave!), depressa encarnaria o papel de justiceiro, dispondo de incrível criatividade e energia para logo descobrir (e publicar) o CPF e endereço da menina.
 
Assim, de uma bela cena de cortesia entre duas pessoas anônimas que se encontram, circunstancialmente, no transporte público, teríamos, como resultado, ira biliosa, troca chocante de ofensas e acusações, invocação de palavras de ordem, slogans sectários, poderes militares, luta de classes. Além, claro, da possibilidade concreta de um desses justiceiros resolver levar às últimas consequências sua sede de virtude cívica, seja por ameaças verbais, seja pela violenta efetivação das mesmas.
 
Tudo por causa de uma foto. De um clique instantâneo. De um registro que, sem os devidos cuidados artísticos ou profissionais, recorta a vida, anula o contexto, elimina os contrastes em favor dos trastes da neurose tecnológica.