domingo, 18 de setembro de 2016

Caçadores de hipocrisia

 
Se você pegar os candidatos a prefeito e vereador, descobrirá, em todos eles, uma série de hipocrisias. Nem carece grande esforço intelectual. Elas já vêm prontas para consumo.

Diz-se mais: se você apontar os governantes, sejam eles do executivo, legislativo, judiciário, estejam depostos, empossados, falecidos, investigados, presos, foragidos, à esquerda, à direita, no mundo da lua ou do cão, vai encontrar mais um monte delas. Um Everest!

Se, indo além, mirar imprensa, atletas, artistas, movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, igrejas, mesmo as raras associações verdadeiramente caridosas, que não sugam o erário e, ao contrário, geram tesouros de esperança, achará, em cada qual, mais uma porção.

Se, na ânsia de se convencer, escarafunchar o comportamento dos seus vizinhos, amigos, parentes, mesmo aqueles que você mais ama, nem precisa que a viagem chegue ao âmago: o olhar mais benevolente que se lhes dê não impedirá a revelação de mais uma penca.

Agora, se você quiser, de verdade, exceler no mister de caçador de hipocrisias; se desejar, do fundo da alma, contemplar a miríade mais vasta dessas formidáveis criaturas, vá ao espelho. Observe-se sem pudor. Liberte o reflexo dos grilhões do orgulho e deleite-se com o maior espetáculo da Terra.

Porque caçar hipocrisia lá fora não requer nenhum trabalho. Basta abrir a palma da mão e recolher a abundância. Difícil é sair do gabinete de si e admitir, sem subterfúgios, que as portas talvez tenham ficado fechadas tempo demais.
 

domingo, 28 de agosto de 2016

30

 
Meu avô sempre nos dizia, ao desejar algo nas datas comemorativas: "saúde, paz e muita sabedoria".
 
Ao completar 30 anos, percebo que, de fato, ele tinha razão: saúde para lutar; paz para repousar; sabedoria para entender, no caos dos acontecimentos, o momento para um e para outro.
 
São os meus três pedidos para hoje.
 
O quarto, oração de todos os dias, não só deste domingo, é que nunca me falte a clareza de que a única realização a que posso aspirar na vida é estar perto das pessoas que amo. Ser melhor por elas. Ser mais forte por elas. E ver o tempo nos moldando, nos mudando, multiplicando e misturando.
 
Por isso escrevo, por isso sonho, por isso sinto saudade, por isso me desculpo, por isso agradeço.
 
Por isso sou feliz.
 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Perguntas


Cada post realizado, salvo outros três, em média. Não sei se é algo bom ou ruim. Fico pensando depois: quem vai ler tudo isso? Quem vai se interessar? Qual sua importância, a não ser para quem redigiu, ainda mais não sendo eu um escritor profissional?

Muitas vezes penso na minha descendência, entre filhos futuros e sobrinhas presentes. Não no sentido de deixar qualquer legado, porque não teria tal pretensão, mas no sentido de que soubessem quem eu sou, quem eu fui, quanto amei. Algo de que me ressinto em relação a meus avós falecidos, a outros parentes importantes dos quais só tenho os testemunhos de quem com eles conviveu. São narrativas que fazem falta, que fariam companhia em horas de paz ou desencontro.

Neste aspecto (em qual não?), a vida é surpreendente. Acostumados à superfície, mal tangenciamos a experiência íntima dos que nos cercam. As pessoas passam e o que fica delas? O que sabemos de suas aspirações, de seus temores? Acabamos no pântano comum das impressões, das imagens públicas, dos apelidos, dos traços físicos. Daquilo que seria suficiente, não fossem os álbuns, os chaveiros, as caixinhas de lembranças no fundo do guarda-roupas, abertas, quando muito, de ano em ano, quase como um ritual. Não fossem as conversas em silêncio, as mudanças adiadas, o choro das permanentes despedidas de si mesmo.

Cada vez que me dou conta de haver deixado de lado uma oportunidade de entender melhor alguém, rasga-se-me uma fibra. Porque sei que ocasiões assim não se repetem. Como sei que os olhos correm sem pousar a tela, as ruas, as vitrines, os rostos, porque este é o ritmo e a regra. Não dá para ser próximo de uma multidão, evidentemente, mas e quando a distância se aprofunda com quem está do lado? Quem não sai do pensamento? Quem estende a mão? Quem o tempo já levou?

São perguntas que me faço nesta idade, ciente de que as respostas não virão nas próximas. Talvez não existam. Talvez, existindo, sejam ferozes demais, difíceis além.

Amém!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Discurso

 
Às vezes a gente começa a semana como quem termina um ano. Um ano não, um ano-luz.
 
O que é natural no ritmo dos enganos, pois enquanto um corpo resiste a sair do cobertor, uma alma não resistiu e desertou do corpo congelado lá na rua, doente do frio, da esquerda, da direita, da opinião e seu oposto, do porre de algum desgosto. Uma alma que, tudo indica, serve melhor à sociedade e seus cabeças agora que é penada.
 
O que não é natural, pois enquanto juram que você é feliz, na verdade o trem está a um palmo de descarrilar, e enquanto a face parece abatida, o peito está a exultar, e enquanto o mundo pensa entender, na verdade ninguém sabe é nada.
 
E porque, abracadabra, enquanto tudo que lhe falta, tudo quanto anseia, é ser o mais simples dos homens, enrola-se a língua, contorcem-se os membros, secretam-se gosmas, triunfa nos campos o epilético vulto do discurso.
 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Segunda-feira

 
Todos os planos de grandes mudanças que fiz para começar nas segundas-feiras falharam brilhantemente. Os poucos que, de fato, se iniciaram, tiveram uma vida média de 3 dias, aproximadamente, prazo a partir do qual se espreguiçaram e voltaram ao sono profundo de onde surgiram.

Mesmo com tantos dados pessimistas em mãos, quase todo domingo à noite, não tem jeito: já começa de novo a tentação. Um impulso que corre a coluna, cora o rosto, faz esfregar as mãos. Vou fazer isso, vou fazer aquilo, nada será como dantes. Ajustes, reformas, revoluções. Admirável mundo novo.

E a segunda chega, lentamente, com seus passinhos irônicos de dança, o sorriso irrevogável, as vértebras de pedra, a marreta solene a derrubar, insensível, os princípios da construção.

Diante de tal panorama, alguém poderia questionar, com toda a justiça e perspicácia: por que insistir no que a própria estatística já provou consistir em erro? Sinceramente, não sei responder.

O que sei, com alguma reserva de convicção, é que, apesar de tudo, um esforço nunca é em vão. Por mínimos os frutos palpáveis, cada ideia de mudança já compreende uma mudança. Cada plano que consegue ir adiante, ainda que por poucas horas, já traduz uma iniciativa. Consequentemente, cada domingo de tentação é um reconhecimento implícito de que há o que fazer e como fazer, o que, por si só, constitui uma celebração das potencialidades da vida.

Deu resultado? Que bom! Não deu resultado? Que bom também! A incerteza é uma das poucas provas do livre arbítrio, um dos muitos mistérios que atiçam a inteligência e tocam o coração.

Aliás, tocou!
  

terça-feira, 24 de maio de 2016

Devia

 
Todo mundo devia ter direito a começar seu dia brindado com um pequeno prazer. Poderia ser cheiro de café, canto de pássaro, face querida, surpresa boa, como lembrar algo importante que dormira esquecido.
 
Coisas até mais simples: a pele texturizada no cobertor, o ar entrando pelos pulmões, as primeiras espreguiçadas do corpo revigorado, o frescor da pasta de dente. Mesmo a água fria da torneira, que, afinal, é água, é choque, é vida.
 
Direito, também, a começar seu dia brincando, acreditando, despertando livremente da noite de seus sonhos para ir colher outros à luz do sol. De barriga cheia e pés aquecidos, olhos abertos e esperançosos, carinho no rosto e coração enternecido.
 
Todo mundo devia, ainda que só nas linhas de uma boba fantasia.
 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Oculto


Renuncia-se a uma palavra, a um gesto, a um impulso. A um sentimento embrionário que, vai saber, poderia virar tudo, ser a própria identidade espelhada nos olhos de alguém.

Renuncia-se não à toa: por fraqueza, às vezes, mais que por força; pela grandeza de horizontes mais fundos que aqueles que a vista presente alcança; pela paz, pela intuição de evitar conflitos cujo saldo pode ser muito mais terrível que a perda daquilo a que se abdica.

Mais que a falta objetiva, que a saudade adivinhada, o ato de uma renúncia tende a ser duplo: por si e, especialmente, pela ciência triste de que ele não será visto, não será reconhecido. Ficará nos subterrâneos, como o esgoto e a água. Ficará oculto, como as raízes.

Faz parte do seu show. Não poderia ser diferente. Desejá-lo seria invalidar a própria essência da renúncia. E bem sabem as almas sensíveis, tão diferentes da minha, quanto se perde com os atentados à essência, tão corriqueiros quanto letais.

Assino Oculto, como as já ditas raízes, que se escondem para que as flores, merecidamente, brilhem.