sexta-feira, 6 de julho de 2018

Passou


Não era costume alguém parar assim, no meio da ponte. A gente em trânsito reclamava, a calçada era estreita, atrapalhava o fluxo.

– Que fluxo para mim? – caberia protestar ao homem das muletas, que não podia andar senão em lenta marcha, com esforço duplo de dor e equilíbrio. Mas não, o homem das muletas não protestava, o homem das muletas só se preocupava com o sol se pondo, com o rio de ouro no lugar do rio pútrido, a se arrastar lá embaixo, como se cruzasse selvas mitológicas.

Nem ligava para o cheiro que emanava das águas infectas, para o barulho sem fim dos carros e seus vômitos monocarbônicos, para a histeria da política e do futebol. Só o que via era a trivialidade do crepúsculo, da cena que se repete, diariamente, desde que a estrela é estrela e o homem é homem.

Mas ele não era qualquer homem, era o homem das muletas, o homem que poderia se jogar da ponte ou oferecer biribinhas aos transeuntes, que o interesse provocado seria o mesmo, as pessoas passariam, o rio passaria, a tarde passaria, eu passaria.

E passei.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Boas vidas


Eu estava de carona no carro e havia colegas no ponto de ônibus. Ela dirigia e, avistando-os, perguntou-me se não convinha parar e pegá-los.

– Melhor, né?

Dizer que me agradou a ideia seria mentira das graúdas. Como não minto, ao menos não nestas verdades fúteis de relatório, confirmo que achei péssima a iminência de dividir o veículo e, com ele, a companhia. Melhor o cacete! Mais gente pra quê?

Pouco podia, no entanto, contra a decisão. Não tanto por não ser dono do carro, nem pelo caráter retórico da pergunta. Antes pela nulidade que, hoje percebo, era eu na época, especialmente para ela, para os colegas do ponto, para as autoridades acadêmicas e o caminho que, casualmente, dividíamos, empoeirados.

Para não ficar sem dizer palavra, como um espantalho de vocálicas paragens, lembrei-lhe, logo após ela buzinar aos amigos, que bem se poderia reproduzir uma cena típica de comédia italiana. Acabara de ver algo igual no filme "Os boas vidas", com Alberto Sordi: dois tipos acenavam para os trabalhadores cansados, que esperavam a condução; fingiam encostar a "macchina", a fim de lhes prover carona; arrancavam a toda velocidade, dando uma banana aos iludidos operários, que espumavam de raiva com o truque pregado.

Lembrei-lhe e, antes, houvesse esquecido, visto que sua reação infligiu-me uma das mais profundas revelações de solidão que jamais viria a conhecer em vida. Não apenas o sentido humorístico da cena do filme, que eu me esforçava em realçar, não foi compreendido, como, olhando-me como a um alienígena, ela me fez perceber que eu não tinha a menor chance de me aproximar, dela ou de qualquer terráqueo, enquanto visse graça em antigos filmes italianos.

Embora morasse mais perto do ponto de ônibus que todos os amigos caroneiros, fui o último a ser entregue em casa, aquele dia. Apesar disso, ou por causa disso, praticamente nada mais disse em todo o caminho, exceto nos minutos finais da imensa volta que demos pelo bairro universitário, quando o carro já se encontrava na avenida em cuja esquina se encontrava meu pequeno apartamento. Devo ter dito palavras banais, o que me era altamente custoso, aliás, uma vez que nada havia de banal em estar com ela, em projetar sua companhia por dias e noites a fio, como então o fazia, dias e noites que seriam tudo, menos banais.

Não faço ideia se meu abatimento ficou patente, se me esforcei ou não para contê-lo em frente às outras pessoas que estavam no carro, se ele seria minimamente entendido, na época ou hoje, pelos colegas e por ela. Não faço ideia se a revelação de solidão de que falei era um destino, uma flecha, uma piada.

Sei que, por linhas tortas, conheci-me melhor aquela tarde. E, embora uma voz irritante diga que mudei irremediavelmente naqueles três, quatro quilômetros percorridos, por ter sentido na pele a distância entre o ideal e a realidade, continuo, uma década depois, vendo meus filmes, rindo de suas cenas, conquanto, não raras vezes, o motor do carro falhe e este Alberto Sordi aqui se estrepe, sua brincadeira de fuga virando um pega-pra-capar.

domingo, 1 de julho de 2018

Viagem


Ontem não conseguia dormir. Havia voltado no tempo e o fuso horário da viagem atormentara-me o sono.

Passeei por horas que quase não existiam mais. Impressionou-me o fato de as mesmas folhas pairando no ar, como berços que balouçassem, de um lado a outro, a embalar ventos futuros. Impressionou-me ainda mais o mesmo ritmo fascinado em que batia meu coração, diante das delícias e compunções da incerteza, visto ter esta envelhecido tanto quanto eu, que agora sei que o manto era bem maior que o mistério que nele se ocultava.

Em dado ponto da jornada, perguntei-me, com sinceridade e uma pitada de desespero, por que a continuo fazendo. Entrar na máquina, ajustar a data, percorrer as rotas, tudo é angustiadamente opcional.

Encontrar-me com a poeira de que sou feito, a poeira que sobe da estrada por que vim, não. E é por ela que puxo o ar, apesar da seca poluição. Por migalhas de seu puro aroma é que rodo a chave na ignição e, atravessando o perigo dos mares, reconheço-me no balanço das ondas.

Elas assustam, devem assustar, como toda turbulência. Anômalo é o corpo que não pula à trovoada, os olhos que não piscam no instável relampejar.

Assustam, não paralisam. Não dissipam. Não esquecem.

E aquele que fui cumprimenta o que não fui, para que juntos, de mãos dadas, aprendamos algo nestes cifrados diários de viagens e possamos ser.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Diário


Já tive um diário, há dez anos atrás.

Comecei-o em um momento de grandes turbulências, quando a confusão sobre o que fazer da vida era ainda uma semente. Estava dividido entre duas cidades, múltiplos interesses, uma genuína certeza de alma. Inevitável que, mesmo em anotações esparsas sobre o dia-a-dia, estilassem centelhas de um fenômeno bastante mais profundo.

Quando leio algumas das palavras que escrevi naquele tempo, dou risada. Outras, entretanto, ameaçam marejar os olhos, percebendo que prediziam meu futuro e, mais que videntes, revelavam a essência de sentimentos que, até hoje, perduram. E, de perdurar, atestam-se grandiosos e verdadeiros, justamente como o melhor que existe em cada um de nós.

Embora me dê conta do grande valor que aquele conjunto pequeno de textos reúne, nunca mais consegui começar outro registro semelhante. Sempre que tento, um pudor corta-me a iniciativa, advertindo-me de que o tempo é precioso e outras atividades merecem prioridade, inclusive no plano da escrita. Sinto-me, ademais, levemente anacrônico anotando no papel eventos do cotidiano, quando não um pouco envergonhado de dar vazão crua a impressões e emoções que, como os dias, passam e alternam-se sem maior significação.

Por que guardá-las?

Por que não guardá-las?

Todo tempo me pergunto, todo tempo me respondo, hora alguma compreendo.

A tempo: era eu, em 2008, uma pessoa bem diferente do que sou agora, em muitas coisas. Talvez uma pessoa melhor, mais romântica nas suas aspirações e na certeza de que elas se realizariam. Como hoje, entretanto, meus objetivos de vida não miravam o ouro que brilha na cúpula dos obeliscos; miravam a luz ao redor, a luz que, projetando-se do coração, completa o seu ciclo no encontro com as luzes dos outros corações, dando alimento (e alento) à travessia.

Era eu, em 2008, um cara que merecia ser mais conhecido do que foi nas tardes de chuva e pôr-do-sol.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Valsa


A valsa toca.

Tudo gira à música: planeta, ponteiros, telencéfalo, as rodas do carro que passa a toda velocidade, contradizendo a madrugada. Ainda as partículas, sub-partículas, tantos níveis mais na hierarquia da matéria.

Quem se importa se há uma reunião amanhã? Se um bater e fechar de portas, um subir e descer de escadas? Se, passado o carnaval, vêm as cinzas, a quaresma, o solstício de inverno, outra reunião? Se, una contingência, múltiplos desencontros?

A valsa parou. Canta, agora, a saudade. Uns olhos azuis em Peruíbe, que, na verdade, era o mar do Caribe, ou a balsa de Ilhabela, ou a origem das águas.

Ou, ainda, dessas mágoas de coração, que a gente já nem lembra de onde vieram e, de não lembrar, embrulham-se nas ondas e tornam à praia como esperança, lavando os pés de quem, humildemente, não desiste – e dança.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Apreciar


Há muitos caminhos, inúmeros, infinitos, entre eles a apreciação e a depreciação.

Apreciar exige mais, porque, em última instância, significa reconhecer as próprias limitações, sublinhando o dom alheio. É avaliar as construções não pelo arrojo de suas formas, mas pela liga de seus pilares. É a desprendida compreensão de que houve um antes e há um depois.

Depreciar pouco demanda esforço. É o ego a se proclamar sultão. Ditadura de vizires ambiciosos, bajuladores, donos não da verdade, mas do direito de outorgá-la. Vala em que se confinam, ceifadas no grão, as mais nobres iniciativas, pois que estímulo para tentar?

Que ar?

Há muitos caminhos, muitos caminhos há, antes de se encontrar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Carpe diem


Nas horas em que tudo vai bem, é muito fácil esquecer a natureza do ciclo.

Por isso, quando se diz para aproveitar cada segundo, não é no sentido de ir às últimas consequências o tempo inteiro. É, muito mais simplesmente, não perder a humildade durante a bonança nem a esperança durante a tempestade. Não fechar os olhos à verdade de cada dia.

Isso, aliás, é carpe diem. É a paciência improvável que gira o moinho quando os ventos se recolhem. A fé que não move montanhas, atravessa-as com dor e rarefações.

O amor que se eterniza porque se o é.