domingo, 9 de maio de 2010

Vôo / Dia das mães


Se a vida for um vôo, você não é a chegada, não é o destino, tampouco as asas que me impulsionam pelo ar.

É só a soma toda do que enternece meus olhos durante o percurso.

Só o pressentimento, cada vez mais forte, de que ainda esbarro no céu azul se me elevar um pouquinho mais...

(A uma pessoa bonita).

*

Mamãe, você é amor. Mamãe, você é minha vida. Eu te ofereço um Dolly, com toda a emoção...

Afora esta homenagem grandiloqüente, inequivocamente insuperável, queria deixar um feliz dia das mães à minha, pela pessoa valente e cheia de amor que ela é, e a todas as que, eventualmente, venham-me prestigiar neste blog. A maternidade é um sentimento absolutamente incomparável. Os filósofos gastam páginas e mais páginas em busca da resposta para a célebre questão do "por que viver?"... Perguntassem a uma mãe, evitariam séculos de discussão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Moda


Virou moda ter que ser feliz. E assim, a procura por ser feliz torna-se de tal modo frenética, de tal modo obsessiva, que felicidade de verdade vira logotipo. Maná dos manuais de auto-ajuda, que ajudam, decididamente, mas não resolvem a vida de ninguém.

Virou moda ter de viver grandes paixões a todo instante. E assim, as pessoas se esquecem de que as telas do computador não têm sentimentos, tampouco se motivam pela dança dos hormônios. Não é em sites de relacionamento que se encontra o grande amor. Até acontece, mas não é porque um macaco aprende a acender um fogão que todo babuíno é mestre-cuca em bistrô francês.

Virou moda "ter mais é que se jogar". E assim, as pessoas não lembram que, no bungee-jump, existe uma cordinha presa aos pés, que é justamente para impedir que as tripas voem pelos ares ante o impacto fatal. A queda gera adrenalina por alguns segundos e gasolina para a lembrança, mas não pode durar para sempre. Nem questão de moral, mas fisiologia pura. O organismo não agüenta.

Virou moda muita coisa neste início de século. E assim, o que era para ser o signo da liberdade, o marco da vitória contra a cruel tirania da história, vai virando engodo. Cada vez mais cativos e senhores, oprimidos e opressores, vítimas e carrascos tão antigos quanto o mundo, cavando um abismo profundo do qual não vai ser fácil escapar.

Ainda é tempo de mudar?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Parabéns!


Tudo bem, já passou da meia-noite, e tal, mas tenho que registrar que este Blog completou um ano de existência neste último dia 24. Para mim, é como se comemorasse um novo aniversário. Um pedacinho à parte, que nasceu à toa, numa gestação despretensiosa, e que, um ano depois, responde por muitos dos meus sentimentos e ambições. Porque cada palavra, cada texto, cada comentário escrito por pessoas queridas e assíduas, é tradução de uma emoção. Rota indireta à expressão de qualquer coisa linda e tocante que precisa ser revelada, se alimenta desta necessidade.

Muita gente está aqui, ora citada ora veladamente. E acho que é isso que torna este espaço tão especial, com seus defeitos e suas jóias. Das que lêem às que são lidas e nem sabem, meus agradecimentos mais sinceros, por me ajudarem tanto e tão profundamente.

Obrigado!

Allan

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Relevo


As pessoas pisam. Judiam. Desdenham. Fazem troça dos esforços que fazemos para sermos verdadeiros. Exigem que banquemos todo tempo bons cordeiros.
A gente releva.

Os políticos detonam. Chegam ao fundo impossível do deboche. Escondem o sorriso com o bigode. Fazem um enorme pagode onde é o povo quem sacode ( e se fode...).
A gente releva.

Conterrâneos sofrem abusos de autoridade. São parados nas portas giratórias. Levam tiros na saída das agências bancárias. Não podem sacar o dinheiro que suaram pra ganhar.
A gente releva.

Vizinhos são espancados, seqüestrados, achacados. Quando o roubo não é casual, é oficial: imposto predial, taxa ambiental, alíquota social, contribuição federal.
A gente releva.

A gente releva e, uma hora, enerva. Mas, de tanto relevar, o relevo cresce a ponto que montanhas se avultam em torno de nossa sede. Os olhos já não podem alcançar a bela vista. Ficamos isolados, tristemente alienados. Guardados da realidade que borbulha do outro lado.

Pra escalar, depois, não é fácil...


*


Há exatos dois anos, escrevi minhas idéias sobre o tema felicidade. Revisitei-as, outro dia, e com alegria percebi que não mudei de opinião. Talvez não esperasse transformações tão rápidas e drásticas neste tempo que passou. Muita coisa marcou, a ferro e fogo, minha pele. Ainda marca, quando me distraio das coisas que valem a pena e me ponho a refletir.

No frigir dos ovos, porém, justamente este lado menos belo é que me faz valorizar o lado mais bonito, mais brilhante desta vida. Um lado que é muito maior, muito mais significante, muito mais forte e importante que os desvios da estrada principal.

Às vezes, de fato, é bom sair do asfalto e ver como tudo é mais lento nas vicinais de chão batido. Como os perigos são reais, como as fugas são ilusórias, como o tempo é sempre exíguo, pra quem nasce e quem se vai.

Eu agradeço bastante, com intensidade, por ter sempre esta chance das duas medidas. Do discernimento racional e passional sobre o que tem valor de verdade e o que é puro capricho. Por saber que minha missão é agradecer, do fundo do coração. Por ter em mãos os termos de comparação e, a partir deles, compreender o privilégio de ser quem sou. De viver a minha vida, cometer os meus erros, ter a autonomia e possibilidade de entrar e sair da minha estrada quando quiser. A liberdade de não agir somente quando convier.

Muito obrigado!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Bodas


Você é tudo o que eu sonhava muito antes da gente se conhecer. Na verdade, até antes de nascer. Porque só uma coisa assim explica o que se dá em mim. O desatar que de repente põe-me a andar nas avenidas, sem controle do que faço, sem saber onde é que o passo está, doido, a me levar. Ele leva, acredite, sempre aonde você está. Não sei como eu adivinho. Não sei como o seu caminho se tornou tão visceral. Seu carinho, tão marcante, essencial.

Você é quem me completa, quem me espeta se preciso e me injeta o paraíso pelas veias. Você é o canto das sereias que me chamam para o mar, para o fundo deste mundo. E eu vou, pensa que não? Vou sem nem lembrar quem sou, sem sequer pestanejar, que sei bem que meu lugar é do seu lado, molhado, marcado, mudado. Suado, soldado, selado. Fechado e trancado, sem nem chave pro cadeado.

Você é o que me dá quando o vento vem soprar a janela do meu quarto. A missão que me foi dada tão depressa fez-se o parto. Eu me lembro do seu rosto e lhe garanto: tinha já todo esse encanto que o tempo retratou. Você é, aliás, o melhor do que eu sou. O motivo de sair e de voltar, do planeta quem sabe girar, desta flor desabrochar. Do sol no céu brilhar. O impulso que me dá de correr pela cidade em busca de socorrer aquela sua vontade. Sabe como é, gravidez, sétimo mês, madrugada, dez pras três, frango xadrez... É normal você querer, pode deixar que eu vou ver.

Você é aquela risada que vem assim, do nada. O fazer nada e tudo bem, o que é que tem? Todas as 1001 mulheres do meu harém. O café quente na cama (tão bom sentir que alguém me ama!). O risco branco de sol que atravessa o lençol. Às vezes, o próprio sol, a própria luz que me invade e me impele à verdade. A angústia que me bate de não estar fazendo o certo, de estar sempre menos perto, mais distante e hesitante. O medo de não ser forte o bastante.

Você é tudo o que eu sonhava muito antes da gente se conhecer. E não sei como foi ser, mas cinqüenta anos depois ainda é tudo o que eu sonho. Até me envergonho. Tanto tempo de casado e ainda estar apaixonado? Só podia ser eu mesmo, esse velho desastrado...

domingo, 5 de abril de 2009

Homenagens


Cai a tarde e, com ela, folhas desbotadas, desgarradas do rebanho, vão-se debruçando, lentamente, sobre o chão. O céu começa a tingir de noite, mas ainda há teimosos raios de um sol que hesita em se pôr. Como o amor, contornam as nuvens carregadas de lágrimas, as copas travadas das árvores, até preencher de luz as fendas da natureza. As fendas da vã tristeza.

O outono deseja entrar. O verão quer ficar, nem que seja um pouquinho mais.

No meio da praça, um banco, não tão branco quanto antigamente, nina em seu colo algumas das folhas que despencam. Pensa que vêm do céu. Cuida delas como fossem filhas suas. Filhas de um deus que é seu, dos demais bancos, dos brancos, dos negros, das existências transparentes. De todos os presentes naquela praça, das crianças na gangorra ao grão de terra que o vento sopra e vai parar do outro lado da calçada.

A infância é uma coisa engraçada. Estação dita passada e, no entanto, tão presente, que se sente permanente.

Há tempos que ninguém senta, além das folhas, nesse banco. Agora que é outono, então, nem pensar. Começa a esfriar, a escurecer mais cedo, a uivar um medo sem nome das entranhas da lagoa. Dizem que lá tem um peixe que voa e soletra a palavra "inconstitucionalissimamente", a maior do vocabulário, olha só que hilário...

Outro dia, porém, alguém sentou. Com carinho, ajeitou as folhas no canto oposto, fez um sorriso lindo no rosto. Mordiscou a metade que faltava da maçã, ornou o cabelo de flores, o mundo de cores, a vida de brilho. E, com um fone em cada ouvido, de sandália e de vestido, pôs pra tocar um samba antigo, um de seus preferidos.

Tudo então ganhou sentido!


*


A vida é uma arte. Como diz a canção, é uma ilusão que a gente tem e, sem saber o que fazer, deixa-a escapar sem querer, por medo de tentar, de não saber, de não ter forças para ser todo esse querer.

"¿Por qué la dejé, por qué la dejé?"

É esbarrar com alguém por acidente, em meio a tanta gente, e esse alguém ser o presente que esperamos. A ilusão que não seguramos.

Se não andáramos os dois, ali, aquela hora, nem talvez nos conhecêssemos. Nem talvez eu descobrisse que minha madrinha baixinha é uma caixinha de surpresas. Um mosaico de belezas, de alentos, de dez mil e novecentos talentos reconhecidos, fora os que ainda serão urdidos. Ela é doutora especialista em dar a pista de ser feliz.

Chama-se Ana Beatriz. Bibi, buzina de carruagem dos romances de folhetim, que por mágico acidente veio parar aqui, em nossos tempos, a chamar pela atenção das coisas do coração. A fazer da ilusão o prelúdio da ação, da diferença um portão, do preto e branco um pavão. Do "podia ter sido" o "são".

E de "Bibi", rainha deste salão, madrinha desta emoção, uma linda e eterna canção...

sábado, 4 de abril de 2009

De repente é um belo dia


De repente, a gente gosta. Não se sabe por onde, por quando, por quê. Por isso, o de repente. Por isso, a torrente, a serpente, o envolvente. Inconseqüente.

Um belo dia surge e daí em diante urge, como fora, desde sempre, de uma precisão vital. O sal da água da mar.

De repente, fica-se torcendo pra que seja mesmo engraçado o comentário que se fez, só para que ela ria e faça sentido o dia. Fala-se o mais trivial em busca de aprovação. Os olhos procuram desvendar um traço de ternura nos olhos que estão do outro lado. A manhã tem mais vigor, mais alegria, mais beleza na calçada, na alvorada.

Um belo dia tem-se a pretensão de adivinhar cada pensamento. Antecipar cada movimento. Justificar cada diferença ou aversão com argumentos de coração, que não exigem retidão metodológica nem rigor científico. Vale só o doce aroma que se quer vindo da boca, em lufadas perfumadas de silvestres estações.

De repente, não é que se esqueceu da hora. Apenas os ponteiros mudam de direção. O tempo vai em outra escala, tira um cochilo no sofá da sala. Não quer nem saber de passar voando. Ainda assim, quando se gosta, mais depressa parece correr. Não há tempo a se perder.

Um belo dia, sobra louça sobre a pia e ele, que antes desaparecia, corre agora com alegria, a lavar, prato por prato, copo por copo, como escrevesse poesia.

E ainda por cima assobia...!