sábado, 14 de março de 2015

Deixar-se

 
Quando penso em seu rosto, não quero que todos descubram a beleza que nele vejo. Desejo que ele sorria, que se ilumine de fantasia, que core de fascínio e surpresa onde impossível achar encanto.
 
Pois quando penso em você, só o que me preocupa é que seja feliz; que consiga, no caos urbano, minutos de segredo para ouvir o coração.
 
Pois quando, discreto, amo em seu coração, ouço poemas ainda por se escrever, litorais ainda por se inundar. E já pouco importa ser uma ilha, o mar,... o escritor ou um barquinho velho cortando o horizonte, desde que este se expanda em seus ideais, desperte-lhe sonho e nostalgia do que será.
 
Pois quando a vida a eleva, por longe que esteja posso vê-la, estrela, brilhar. E isso me aproxima, não afasta. Isso me basta. Este amor que, do céu à terra, de mistério não tem nada, pois nada busca, nada exige, nada pede senão deixar-se existir.
 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Improvável


Uma pessoa, por desajeitada que seja ou pense estar, pode aprender várias coisas: nadar, patinar, desenhar, dobrar roupa, falar línguas. Aprende a dançar, dirigir, fazer esportes, proferir discursos, plantar uma horta, cultivar pomares no quintal de sua rotina.

Vamos além: se inato, como dizem, o talento, inata, igualmente, a capacidade para criar conhecimento. Porque uma pessoa, assim querendo, pode muito. Aprender não só habilidades, mas sabores, texturas, cores, dimensões. Quão semelhantes teto e piso nos imprecisos giros do planeta.

Sim, uma pessoa pode crescer, pode expandir-se, aprimorar-se. Descobrir formas autênticas de rir e de sorrir, novos mistérios em velhos saberes, novos sinais no caminho cotidiano. Enxergar beleza onde não as via, onde hábito e lei diziam não haver.

Em meio a este acervo comum de potencialidades, pessoas pensam diferente, expressam-se diferente, falam diferente, olham diferente, até enxergam diferente. E, com tudo isso, podem sonhar igual. Sentir igual. Ora, quantos discrepantes relevos debaixo da mesma amplidão de água, dos mesmos raios de prata da lua inatingível? Esses reflexos sobre nós, embalando afinidades, não nos unem o bastante?

Unem, claro que unem, como nos unem aquelas notas indizíveis que vem de dentro: o respeito, a empatia, a carícia avassaladora de quem verte ternura dos poros. Quem se aproxima, com toda a sinceridade de uma prosa, das rimas do coração. Quem se preocupa, nos detalhes mais banais, com a nossa condição. Quem afaga ansiedades, cuida dos silêncios, fia expectativas. Quem, nessas horas desgarradas que não se aprendem, cunha, modestamente, pequenos milênios de amor.

O que é uma religião, o que oferece um dogma diante de tamanha força? O que pode a estatística nesta torrente improvável? Quanto contam opiniões se a verdade não está no dito, mas no bonito? O que, finalmente, mais bonito que o entendimento entre almas díspares, a atração entre corpos únicos, a melodia que faz, dos nós, os laços?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pluto


Pluto is no longer a planet
and I don't care,
there's plenty of space for us
if you dare.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dez anos


Dei-me conta de que, por esses dias, está fazendo dez anos de um evento que marcou profundamente a minha vida: passar na Unicamp.
 
Fazer uma faculdade de medicina ensina muitas coisas, mas a principal delas é a percepção do quanto somos dependentes e semelhantes uns em relação aos outros: colegas, pacientes, profissionais da saúde. Deparando-se com a escassez, o descaso, a solidão e as dúvidas, temos a chance, rara na vida, de ver realçados os pontos de contato e comunidade com quem está ao redor. Isso em um momento de verdadeiro turbilhão, com pressões as mais variadas combinando-se sobre o aluno.
 
Com esta década de distância, em um balanço muito cru e sincero, acredito que aproveitei algumas dessas oportunidades e outras não – balanço, aliás, que vale para a existência em geral. Entre aquelas que aproveitei, não poderia deixar de agradecer aos docentes, alguns dos quais, inclusive, acompanhando-me ainda hoje, presentes nos pequenos passos que arrisco. Pessoas a quem dá gosto chamar de professores.
 
O mesmo a respeito de meus colegas de sala, tanto os de 2005 quanto os que vieram depois. É muito bom vê-los desenvolvendo suas carreiras, não só em Campinas como em diferentes locais do Brasil. Torço por eles como se fosse eu quem estivesse ali, pela razão única e bastante de que, no lugar deles, gostaria muito de ter como amparo tal sentimento, sobretudo lidando com a questão mais delicada do ser humano, que é a sua saúde.
 
Finalmente, o intangível. O cair das tardes, o ir e vir de faces, a névoa dos olhos, o silêncio das manhãs. Fragmentos de histórias anônimas conjuminando-se a resíduos de cores, construindo vitrais em catedrais de sensações disseminadas por cada músculo meu que se move, cada pensamento que se refaz. Verdade que, o concreto já sendo difícil, que se falar do abstrato? Deste tato tão pessoal quanto inútil para os outros? Que importância senão para mim mesmo?
 
Verdade! Como verdade também que, muitas vezes, uma estátua é tudo, menos a matéria de que é feita. Uma estrada é tudo, menos as pontas que lhe dão sentido.
 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Árvore


Tinha uma pequena árvore, pela qual passava, que haviam enfeitado no Natal. Eram luzes simples e bonitas, que davam um aspecto etéreo ao conjunto. Não sei que sensação de plenitude e encanto me dava ao olhar para ela. Até torcia para o semáforo fechar; para, quem sabe, nunca mais abrir.

Há poucos dias, passei à noite e, necessariamente, as luzes não constavam mais. Repeti a passagem, agora em um fim de tarde, e, para minha surpresa, a árvore conseguira se superar: repleta de miúdas flores lilases, prende os olhos de qualquer alma minimamente feliz.

Por que o desejo de partilhar esta observação tão pessoal - e, a rigor, tão inútil - não sei. Talvez para concluir que o que é belo, belo será, não importa o tempo ou os adereços. Talvez para me convencer de que há mais esquinas em cada esquina do que supõe nossas vãs plantas urbanas. Talvez porque o semáforo, atendendo minhas preces, aguarda gentilmente o devir destas palavras.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Amor e política


A julgar por aquilo que acontece no mundo (cada esquina, cada lugar), não, as declarações de amor cívico e universal das redes sociais não causam epifania no coração de governantes malvados, os quais, tocados pelo doce som da harpa da concórdia, cancelam suas ambições em benefício da paz e do entendimento.

As evidências, aliás, são de que sequer aumentam o estoque bruto de amor no mercado. Ao contrário, causam um aumento drástico dos juros cobrados sobre o sentimento, além de provocar cinismo e indiferença nos cidadãos quanto à eficácia e conveniência do regime.

Por isso, se você me perguntar se existe amor em São Paulo, eu digo: claro que existe. Existe amor em Paris, na Nigéria, na Indonésia? Sem dúvida que sim. Mas amor não impede atentados e massacres, amor não interfere nos corredores da morte nos cinco continentes, amor não existe na diplomacia brasileira, amor não redunda em ordem ou desordem pública, progresso ou atraso material, mobilidade ou paralisia urbana.

Não se faz política com amor, como não se faz amor com política.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Doutores

 
Uma lagartixa suméria de três cabeças, erguida sobre a cauda de jujuba, dança Macarena numa folha que, misteriosamente, nem despenca, nem ascende: fica parada no ar, imune à gravidade, a cerca de seis metros de altura, em movimentado largo desta metrópole.
 
Surpreendente? Talvez à primeira vista, mas olha: nem dá tempo de se impressionar. No Facebook, já temos doutores na lógica do fenômeno, destacando causas, consequências e, claro, denunciando a hipocrisia geral das sociedades vertebradas, já que ninguém, réptil ou humano, pode ser distraído e feliz um segundo sequer sem ferir a lei desses distintos tiranetes.