segunda-feira, 6 de junho de 2016

Segunda-feira

 
Todos os planos de grandes mudanças que fiz para começar nas segundas-feiras falharam brilhantemente. Os poucos que, de fato, se iniciaram, tiveram uma vida média de 3 dias, aproximadamente, prazo a partir do qual se espreguiçaram e voltaram ao sono profundo de onde surgiram.

Mesmo com tantos dados pessimistas em mãos, quase todo domingo à noite, não tem jeito: já começa de novo a tentação. Um impulso que corre a coluna, cora o rosto, faz esfregar as mãos. Vou fazer isso, vou fazer aquilo, nada será como dantes. Ajustes, reformas, revoluções. Admirável mundo novo.

E a segunda chega, lentamente, com seus passinhos irônicos de dança, o sorriso irrevogável, as vértebras de pedra, a marreta solene a derrubar, insensível, os princípios da construção.

Diante de tal panorama, alguém poderia questionar, com toda a justiça e perspicácia: por que insistir no que a própria estatística já provou consistir em erro? Sinceramente, não sei responder.

O que sei, com alguma reserva de convicção, é que, apesar de tudo, um esforço nunca é em vão. Por mínimos os frutos palpáveis, cada ideia de mudança já compreende uma mudança. Cada plano que consegue ir adiante, ainda que por poucas horas, já traduz uma iniciativa. Consequentemente, cada domingo de tentação é um reconhecimento implícito de que há o que fazer e como fazer, o que, por si só, constitui uma celebração das potencialidades da vida.

Deu resultado? Que bom! Não deu resultado? Que bom também! A incerteza é uma das poucas provas do livre arbítrio, um dos muitos mistérios que atiçam a inteligência e tocam o coração.

Aliás, tocou!
  

terça-feira, 24 de maio de 2016

Devia

 
Todo mundo devia ter direito a começar seu dia brindado com um pequeno prazer. Poderia ser cheiro de café, canto de pássaro, face querida, surpresa boa, como lembrar algo importante que dormira esquecido.
 
Coisas até mais simples: a pele texturizada no cobertor, o ar entrando pelos pulmões, as primeiras espreguiçadas do corpo revigorado, o frescor da pasta de dente. Mesmo a água fria da torneira, que, afinal, é água, é choque, é vida.
 
Direito, também, a começar seu dia brincando, acreditando, despertando livremente da noite de seus sonhos para ir colher outros à luz do sol. De barriga cheia e pés aquecidos, olhos abertos e esperançosos, carinho no rosto e coração enternecido.
 
Todo mundo devia, ainda que só nas linhas de uma boba fantasia.
 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Oculto


Renuncia-se a uma palavra, a um gesto, a um impulso. A um sentimento embrionário que, vai saber, poderia virar tudo, ser a própria identidade espelhada nos olhos de alguém.

Renuncia-se não à toa: por fraqueza, às vezes, mais que por força; pela grandeza de horizontes mais fundos que aqueles que a vista presente alcança; pela paz, pela intuição de evitar conflitos cujo saldo pode ser muito mais terrível que a perda daquilo a que se abdica.

Mais que a falta objetiva, que a saudade adivinhada, o ato de uma renúncia tende a ser duplo: por si e, especialmente, pela ciência triste de que ele não será visto, não será reconhecido. Ficará nos subterrâneos, como o esgoto e a água. Ficará oculto, como as raízes.

Faz parte do seu show. Não poderia ser diferente. Desejá-lo seria invalidar a própria essência da renúncia. E bem sabem as almas sensíveis, tão diferentes da minha, quanto se perde com os atentados à essência, tão corriqueiros quanto letais.

Assino Oculto, como as já ditas raízes, que se escondem para que as flores, merecidamente, brilhem.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Burocrática


Vez por outra a gente recebe uma nota de falecimento por e-mails institucionais. Na grande parte dos casos, não conhecemos as pessoas que faleceram. Docentes aposentados, o pai de um funcionário de outro departamento, no qual sequer pisamos, alguém que ocupou um cargo já caduco na lógica administrativa.

A gente olha os dados biográficos, sumários como nada que pareça com a vida. Endereço do funeral, condolências automáticas nas palavras de pesar. A morte em sua face mais fria, que é a face burocrática.

A gente apaga o e-mail, para não obstruir a caixa de entrada. Com um clique, esquece o que já foi esquecido pelo ciclo natural da fisiologia. Nada há de cruel neste ato, é verdade. Quantas pessoas não morrem todos os dias? Quantos, talvez, que nenhuma chance tiveram no decurso de sua existência, que não sorveram sabores vários, que tiveram seus sonhos mais simples vetados pela necessidade de acordar cedo? Quantos, possivelmente, que não chegaram perto da plenitude e da felicidade daquele cujo finamento acaba de se nos comunicar?

Nada há de cruel, repete-se. Se todo sofrimento humano açoitasse a pele dos indivíduos da espécie, pereceríamos no primeiro ar. Não daríamos um passo, não articularíamos um som.

Nada cruel, sublinha-se.

Por que, então, esta amarga sensação?

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Redação

 
Uma vez, na aula de italiano, precisei descrever como era o lugar dos meus sonhos.
 
Modéstia à parte, fiz um bom trabalho para quem estava começando a aprender. Caracterizações bem trançadas, um final decente e razoavelmente poético, dentro das possibilidades.
 
Não entreguei, porém, a redação. Até hoje está devidamente guardada, recordação que é de um tempo no qual eu acreditava naquelas palavras.
 
Minha pergunta, hoje, é outra. Como são os sonhos do meu lugar? Quais as chances de se realizarem? Qual a importância de se realizarem, se intactos e puros no carrossel da hipnose?
 
Precisaria de muito papel para esta redação. Ao mesmo tempo, de quase nenhum. De meia dúzia de nomes próprios que levam o oceano a meus olhos e fazem que eles vejam o infinito. De uma conversa simples em uma mesa simples ao redor da qual nada precise acontecer. De um sorriso que é metáfora, pleonasmo e superlativo da felicidade.
 
De saudades afagadas pela intensa vitalidade do amor que as sucedeu.
 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Desimportante


Um professor da faculdade apresentava, no telão, as pérolas produzidas pelos alunos em suas provas. Transformava, assim, a tensão da divulgação das notas em um momento descontraído.

Uma vez, julgando encontrar um erro gramatical evidente, sublinhou, como uma dessas pérolas, a palavra "desimportante", utilizada por desavisado estudante em uma de suas respostas. Na época, não sabia que a palavra existia, de modo que, apesar de desconfiado, acreditei que, de fato, algum erro havia-se cometido.

Uma pulga atrás da orelha, porém, levou-me, anos mais tarde, a sanar a dúvida. Sim, a palavra "desimportante" consta nos dicionários. É um pouco feia, soa mal, mas existe. Apenas não é utilizada com frequência. Seja quem for o autor da pérola, pois, fique redimido: você não estava equivocado(a).

O que a pulga não me contou (nem o faria, por bioquímica lealdade) é que o sangue que ela haveria de extrair de meu pobre lóbulo era também desimportante. Que, tão depressa eu decifrasse esse enigma sem esfinge, perceberia que a palavra feia, a palavra torta, a palavra da qual, com razão, todos riram na sala de aula, era aquela que mais bem se ajustava ao rastro que eu ia deixando. Pegadas desimportantes, marcos desimportantes, metas desimportantes. Lágrimas, pontadas, receios, contenções, cabimentos desimportantes. A própria desimportância desimportante, parada como um rio podre, banal como um bolo de supermercado, em seu completo alheamento; paliada por canções dulcíssimas, por ideias geniais, por números impossíveis que, confortando-a, mais a corroboram, em sua ânsia de expressar o que não há, o que não é.

Constatar-se desimportante; perceber que todos os signos, todas as memórias, tudo de mais sagrado que plantamos, colhemos e cuidamos pode nada significar; intuir, ainda que por um instante, que, no revolver das gavetas, o afã será por esvaziá-las, não conhecê-las; descobrir que ninguém quer seus brinquedos velhos, seus livros amarelos, suas palavras sem pilha, é algo com que não se sabe lidar. Com que a mais serena têmpera deixa-se perturbar. O maior baque, talvez, da existência da alma.

Daí, pois, a importância de reconhecer. De mostrar. De falar. De brigar, até, se linguagem mais branda não souber manejar. Reconhecer, mostrar, falar o quê? Qualquer coisa. Tudo. Quanto quiser. O mais simples detalhe, a  mais despretensiosa observação. A indiferença inerente à condição vital só é superada em crueldade pela indiferença que se impinge voluntariamente ao semelhante, como ato de rancor ou expressão displicente de desdém.

Em palavras mais cruas: mande-me à merda, mas não me deixe aqui no porto, acenando o lenço gasto aos fantasmas do naufrágio.
 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Isso

 
Vivo simplesmente. Poucos artifícios. Como o que há no prato, respiro o ar que me vem, respondo a quem me pergunta. Mil defeitos ostento, outros mil oculto, vultos, no impenetrável núcleo das selvas intestinas. Entre feras e ribanceiras, dois mil, portanto: nenhum, no entanto, que me reflita como não sou.
 
Sou isso. Em constante mudança, em desejável mudança. Por mim, pelos que me amam, pelas circunstâncias. Nada mais tolo que não mudar. Nada mais egoísta que se declarar impassível de modificações, como se gostar fosse um ato unilateral e incondicional de confirmação.
 
Com toda a mudança, ainda assim, sou isso. Continuo isso. Nem mais nem menos. Não digo o que não sinto, não procuro o que não me toca, não me aproximo do que não quero perto, não me arrependo do que me encanta. O que pareço aos olhos dos outros, não sei. Desejo, de coração, que o melhor, o mais verdadeiro em relação àquilo que penso de minhas próprias escolhas. Não posso, porém, controlar. Não quereria controlar. Não me compete. Apenas reitero: não digo o que não sinto, não procuro o que não me toca. Se falo que é bonito, é porque vejo beleza. Se escrevo que sinto falta, é porque tenho saudade. Pouco valor tem meu juízo de caráter, meu fascínio, meu sentimento, tudo isso é verdade. Muita gente enxerga melhor, mais nítido e longe que eu, com meu grau e meio de miopia. Mas meu olhar é meu olhar, e ele não sabe mentir. 
 
Ele vê que há os que pedem sinceridade, mas não a aguentam. Os que clamam por demonstrações de amor, mas logo se entendiam. Os que almejam ser compreendidos, em vez de julgados, mas depressa acusam a falta do aguilhão da clava alheia. Tão flagrantes contradições, que não haveria linha para fiar tanto tecido.
 
Eu não peço nada. Não clamo nada. Não almejo mais que um filete de água que desafie a impostura da ravina. Mas reconheço que é uma opção lógica. Pode mesmo se tornar um bom negócio nos balcões propícios. Lucrativo e piedoso, dependendo das cartas lançadas. Não para mim. Com todo o respeito de quem nada postula, com toda a pompa de quem tudo teme, o jogo das aparências não me interessa. É possível ser polido, diplomático, gentil e respeitoso sem dele participar. Mais que possível: é desejável; é cristalino; é urgente.
 
E digo o porquê: prefiro ser bobo a ser falso; ingênuo a esperto; iludido a ilusionista. Pois a ilusão, que às vezes fere; que às vezes caçoa, no espelho, da nossa cara de tacho; que às vezes magoa como jamais deveria magoar-se um ser humano... A ilusão vale mais, muito mais que a presunçosa, efêmera glória de dominar um truque.